Vem o verão e volvo a Bergantinhos. Como se fechara um ciclo, um reflecte por um pouco sobre estes meses na Mongólia. Do primeiro que me chamou a atenção ao chegar a Ulaanbaatar nos primeiros dias, ainda hospedado num hotel, foi, ao passar pelos canais de televisão disponíveis em horário que se supõe de máxima audiência, achar um patrão a falar da cria de cavalos. Ainda sem entender nem papa do idioma, as imagens e a voz reflectiam uma profunda emoção ao ver as éguas com os seus poldros e os cavalos a correrem no campo. Naquele momento pensei que um país que fala destes assuntos em contexto de máxima importância tem que ser um grande país, e eu parece-mo. Marchei do hotel e pude viver alguns dias em um ger, umas das melhores experiências da minha vida que me permitiu, cuido, melhor compreender o modo de vida nos nossos antigos castros e aprender sobre o nómada. O inverno, com o frio extremo, as enormes chairas cobertas de neve, sem recurso nenhum à vista, acabou por me amostrar mais um elemento que deveu determinar a história dos povos da Ásia central.

Comecei a estudar um algo Mongol contra fins do ano passado. Aprendi muito menos do que deveria e quiser. Tenho uma ideia vaga do funcionamento da língua a nível da sintaxe e morfológico, o meu vocabulário é ainda mais do que mínimo. Tive a grande sorte de assistir a aulas com uma professora extraordinária, autora de vários métodos de aprendizagem de Mongol, que muito pacientemente me contestou e explicou qualquer pergunta sobre a gramática que lhe eu fizer. Nas duas últimas aulas estivemos a traduzir uma canção tradicional e um fragmento de um poema mais recente. Basicamente o método foi explicação das unidades léxicas, análise de constituintes frasais, função gramatical (sujeito, predicado, objectos e adverbiais) e parafraseio.

Velacô uma canção mongol que achei no Youtube. O tema é a morrinha da terra onde o cantor tem um cavalo e seus pais.

A maior dificuldade de tradução, para mim, apresenta-se na descrição que se faz do cavalo, definido pela sua origem (Erdene Sasgiin, uma das cinco antigas regiões da Mongólia segundo me explicaram) e pelo modo de andadura. Na primeira estrofe o termo usado, Эрвэлзүүлэнхэн, foi-me descrito com um significado associado ao sentido do tacto e um movimento circular, deixo-o como passo travado, com o sentido de passo de andadura.

Na segunda, товолзууланхан, pelas explicações que me deram, refere-se a um passo mais rápido que o da primeira estrofe; em vez do equivalente a um passo exacto na nossa língua (trote, galope) traduzo pelo adjectivo ligeiro.

Em ambos os dois casos as sílabas finais -лэнхэн e -ланхан têm apenas valor poético-musical, sem significado nenhum, não são morfemas, mas elementos de som similares aos duridin durindaina ou ailaralelo ailaralalo das cântigas populares e, mais concretamente, no referido à sua função dentro do verso, segundo o meu entendimento, mais similares às vogais paragógicas do nosso cancioneiro clássico medieval.

Para além desta canção e um fragmento de um poema contemporâneo que procurarei pôr por escrito um dia destes, pude desfrutar da leitura das tríadas mongóis, ao pouco de chegar a Mongólia, em traduções ao inglês e francês. Fiz alguma incursão na sua leitura com a ajuda dos amigos mongóis, mas a profundidade de significado das tríadas, que pretendem transmitir um elemento de sabedoria ou conselho, oferecer uma lição, pois, requer uns conhecimentos mais avançados da língua para a tradução e ainda compreensão desde o Mongol. Tem-se destacado paralelismos com as tríadas célticas (há uma tradução do Cancioneiro Céltico elaborado por J. Pokorny, editado por Galaxia na Galiza, sem versão ainda em padrão segundo o Acordo Ortográfico). Nesta canção aqui traduzida, ainda que apresenta um modo constructivo que, pelo menos a mim, me parece ter algumas semelhanças com as tríadas, no carácter fundamentalmente descritivo e visual dos versos, acho estamos ante um tema mais universal, que pretende transmitir um sentimento da ausência mais do que reflectir ou oferecer uma dica sobre o comportamento humano (caso das tríadas).

Velacô daquela.

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De Erdene Sasgiin um poldro
de andar a passo travado;
nas dunas da terra natal
minha nai, já maior, com o cavelo gris.

De Tobuu Sasgiin um poldro
de passo ligeiro;
num outeiro na terra natal
meu pai, com o cavelo muito branco.

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Эрдэнэ засгийн унага нь
Эрвэлзүүлэнхэн жороо шүү
Элсэн манханд нутагтай
Эмгэн буурал ээжтэй шүү

Товуу засгийн унага нь
Товолзууланхан жороо шүү
Товцог толгодод нутагтай шүү
Тунчиг буурал аавтай шүү

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Letra e música https://www.youtube.com/watch?v=U2qCBbbiyQs&feature=youtube_gdata_player

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