capaestrelas

Mais particularmente, o derradeiro fungueiro do chedeiro, o mais afastado da cabeçalha. Pertencem, a cabeçalha e o fungueiro, ao campo lexical do carro, noutrora tão comum, com termos muito específicos e precisos que podem variar na sua forma fónica de uma comarca, e mesmo localidade, à outra. Assim é fungueiro o que apenas umas léguas além se chama fueiro, estadulho, estadeo, fumeiro ou finheiro. Uma mesma fala e formas por vezes muito distintas para um mesmo referente.

Assim hoje em dia dizemos, em formas de uso diário e comum, cativo em Bergantinhos, pícaro na Marinha lucense, neno na Crunha, menino em Lisboa e toda uma lista a seguir, com valores semânticos mais precisos e maior ou menor distribuição geográfica dentro da lusofonia (miúdo, criança, garoto, moleque, nenem, piá…). Um mesmo idioma, múltiplas formas para expressarmos um mesmo conceito.

De igual modo que no seu tempo a melhora do carro precisou de termos muito específicos para distinguir cada uma das suas partes e acções relacionadas, assim campos como o da fotografia e a astronomia geram instrumentos e técnicas que criam a necessidade de desenvolvermos uma terminologia própria, o mais exacta possível. E determinar o significado de um vocábulo requer um conhecimento às vezes profundo da matéria. Por isso, quando iniciei a tradução da obra Como fotografar estrelas, de Anton Jankovoy, de contadinho compreendi que a elaboração do léxico técnico era labor muito por riba das minhas capacidades. Foi o próprio autor, o Anton, o primeiro a atender as minhas consultas para determinar o significado exacto de termos e passagens.

Primeiro a definição exacta.

E nisto tive a grande fortuna de poder consultar, mais pausadamente, o divulgador científico, fotógrafo e astrónomo amador (alguma sua fotografia galardoada em certame de fotografia astronómica na Espanha) José Mª. de la Viña, que me explicou, clarificou e amostrou mesmo, aspectos relacionados com o equipamento fotográfico, a arte da composição e a astronomia. Se alguma virtude tiver na distinção terminológica esta tradução, é em boa parte devida ao professor D. José Mª; nem que dizer há que qualquer inexactidão se deve unicamente ao meu critério, mais linguístico do que específico da matéria.

Uma vez elaborado o glossário básico e compreendidos os conceitos, há que realizar as equivalências. E nem tudo está por inventar. Há milheiros de fotógrafos e astrónomos amadores no Brasil, em Europa, em África, nas universidades da Ásia, grandes companhias internacionais mesmo têm um uso registado do vocabulário. Então é que se faz mais determinante o labor de escolha sobre o corpus. Qual o critério a usar para preferir uma ou outra forma? O nosso é um dos idiomas mais espargidos pelo mundo. Oficial na Galiza e em Portugal, na Europa, nessa boa parte da América que é o Brasil, em ambas as duas bandas da África e língua veicular e/ou oficial em pontos estratégicos dos mares da Ásia e a Oceânia, são variados também os sotaques e realizações fonéticas, por isso é que a escrita se faz determinante como elemento de coesão. Desde a perspectiva do planeamento linguístico do corpus vários são os critérios que determinam a fixação de uma forma como standard: o número de falantes (formas usadas por mais falantes no presente), a tradição oral e literária (formas mais usadas no devir histórico do idioma) elementos de status (formas usadas por instituições, média ou figuras que podem determinar o uso futuro de um grande número de falantes, fala da metrópole e idiolectos) e maior eficácia linguística (ortografia e desambiguações gramaticais e semânticas).

Se escolhermos mais relevante o critério número de falantes, Brasil e as comunidades da África terão de determinar maiormente o standard. Se vemos o idioma como um continuum originário de Portugal, também é oportuna uma certa linha de continuidade com o berce original galego (e a Galiza fica a ambas beiras do Minho). Uma combinatória principalmente destes dois critérios é que regeu esta tradução. Isto não significa que pretenda ser uma tentativa de construir uma variedade do nosso idioma puramente global. Tal coisa não existe… ainda.

Este é um texto escrito em galego, atendendo a critérios que pretendem seguir o standard mais internacional vigente (Acordo Ortográfico como principal referente), com adaptações motivadas principalmente pelo intuito de oferecer um texto facilmente inteligível, a pesar da complexidade que por vezes tem a matéria que trata, pelos falantes do nosso idioma em Malpica de Bergantinhos, Goa, Dili, Aveiro, Maputo ou Luanda. Sem esquecermos os milhões de pessoas que continuam a transmissão geracional da nossa língua na Argentina, na Indochina, na China mesmo e em países de todos os continentes nos que é aprendido junto com outras línguas mais ou menos importantes, todas grandes e formosas para quem as vive também como próprias.

A peculiar situação que vive o nosso idioma na Galiza de aquém Minho, com variedade normativa, faz que a aprendizagem da norma comum dependa ainda em grande medida da vontade própria do falante, e teve como resultado pelo de agora no meu caso um conhecimento limitado do padr&anasal;o. Por isso é que puder haver expressões na minha tradução mais devidas a uma falta de uso apropriado do standard do que a escolhas meditadas. A tal efeito, tenho de agradecer a Hugo da Nóbrega Dias, fotógrafo e publicista do Porto, o ter revisto o texto para melhorar a sua expressividade, corrigir gralhas, favorecer escolhas lexicais e diminuir (aguardo consideravelmente) possíveis solecismos. Se algum erro ficar, é devido à própria edição ou a uma vontade do Hugo de respeitar um uso já estilístico do idioma, unicamente devido à minha pessoa, pois ainda que limitado pelo conhecimento da matéria no meu caso, ambos tivemos como propósito primeiro o facilitar a compreensão por parte de um público que vai muito para além do galego/português continental, ainda que seja minoritário e muito disperso geograficamente, que é aquele interessado pela fotografia de estrelas.

Porque, a final, disso é que se trata. De fotografia de estrelas.

No meu caso o interesse particular na tradução desta obra surdiu do estudo de viagens pelas paragens por onde também hoje anda o Anton Jankovoy. Muitas vezes, relendo texto e olhando as fotografias, aventurei se aqueles navegantes que iniciaram a observação metódica e anotada dos astros para se orientarem e virem mais conhecer a enorme diversidade de línguas que compõem a paisagem humana, sentiram uma única forma de linguagem, universal, que intuímos diante da contemplação da imagem do céu nocturno, como parece desprender-se também da observação no momento da estrela estática e na suma de momentos do rastro de estrelas, capturados nas fotografias do Anton.

Se esta tradução puder servir para conseguir novas imagens a transmitirem igual ou ainda maiores e novos propósitos, tal foi a nossa vontade ao a elaborarmos.

De hoje um ano, muitas vezes. Por muitos anos.

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Excerpto da obra Como fotografar estrelas de Anton Jankovoy. Tradução de Afonso Xavier Canosa Rodrigues, revista por Hugo da Nóbrega Dias.

Polo Norte celeste

Carro grande e pequeno e Estrela Polar
O carro grande a virar derredor do pequeno, e o pequeno a virar com a cabeçalha na Estrela Polar

Devido à rotação da Terra sobre seu eixo, parece-nos que o céu estrelado está a girar. No Hemisfério Norte esta rotação tem sentido anti-horário em relação ao ponto chamado Polo Norte Celeste. E a Estrela Polar está próxima a esse ponto. É de todos sabido que a Terra gira sobre o seu eixo com um período de rotação de ~ 24 horas. Num minuto, a Terra gira cerca de 0,25 graus. Portanto, numa hora há um arco de 15 graus para cada estrela. O arco é maior quanto maior for a distância da estrela à Estrela Polar.

A Estrela Polar é uma supergigante, mas nem sempre é fácil de encontrar, pois a sua distância da Terra é de 472 anos-luz.

Portanto, a fim de identificar a Estrela Polar, devemos primeiro encontrar uma configuração bem reconhecível, de sete estrelas brilhantes, na constelação da Ursa Maior, que lembra um colherão ou carro grande (asterismo do grande carro ou da caçarola). Depois, devemos traçar mentalmente uma linha com as duas estrelas que formam o fungueiro da parte mais anterior do carro, opostas e perpendiculares à cabeçalha e, com esta linha do fungueiro, temos que medir cinco vezes a distância entre estas duas estrelas, isto é, cinco vezes o alto do fungueiro anterior do carro.

Aproximadamente no bico desta linha apontada pelo fungueiro fica a Estrela Polar, a estrela mais brilhante da constelação Ursa Menor, que também é um pouco como uma colher ou pequeno carro, mas não tão inconfundível e perceptível no céu.

A Estrela Polar fica sempre além do ponto norte do horizonte, no Hemisfério Norte, o que a faz útil para a orientação na terra ou no mar e, baseando-nos na sua altitude acima do horizonte, podemos determinar qual a latitude geográfica em que estamos.

O carro grande e a Polar
A orientação e medida do fungueiro do carro grande mostram a posição da Estrela Polar

Querem comparar a Estrela Polar com o Sol? Vamos logo!

A Estrela Polar é:

– 6 vezes mais pesada do que o Sol.

– 120 vezes maior do que o Sol.

– Irradia 10.000 vezes mais calor e luz do que o Sol.

– É amarela – a mesma cor que o Sol.

Mas um raio de luz do Sol chega à Terra em apenas 8 minutos, enquanto que são necessários 472 anos para um raio chegar aqui desde a Estrela Polar. Isto significa que hoje em dia vemos a Estrela Polar do jeito que era no tempo de Fernão Mendes Pinto.

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Mais informação e trechos de Como fotografar estrelas (disponível só em formato digital):

  • Edição Kindle: Amazon internacional, Amazon Brasil, Amazon Espanha e página de pesquisa para Amazon Europa.
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