Para meu sobrinhinho Alberte, algum dia

Pelo menos algum tempo, ao melhor já foi de quando os abrunheiros davam ameijas e por meio das pereiras medravam maçãs sapas, os rapazes que se não guiavam como era o devido, vinha o homem do saco por eles. Agora, disque, porque tampouco sou eu muito douto na matéria, os rapazes e rapazas que se guiam bem e estimam os abrunheiros (que dão abrunhos e também ameixas e eu parece-mo que é cousa de crer) vem um homem com um saco cheio de lilos e, como foram bons, deixa-lhes agasalhos.

Neste tempo do cepo de Nadal, da lareira, de cantar e a leriar com contos, velacô um cantar que tem múltiplas leituras. A minha fala de pessoas que se volvem encontrar, e de contos e histórias para o inverno e que, no fundo, conforme o entendimento meu, é também uma mensagem para lembrar que nem todos vivemos, podemos viver, as datas igual.

Por um mundo melhor para todo o mundo. Os meus melhores desejos.

A LUA TODA INTEIRINHA

Pintei um arco da velha
que ti tremavas com as mãos.
Eu alvisquei faiscas
ti viste-o em toda a sua extensão.
Eu maravilhei-me pelo mundo adiante por anos
mentres ti tavas na habitação tua.
Eu vi a crescente
ti viste toda a redonda da lua.
Toda a redonda da lua!

Ti tavas ali nos carrosséis
com o vento aos teus pés
estricavas-te cara às estrelas
e sabes o que sentes
ao chegares
bem alto
bem longe
bem aginha!
Viste a lua toda inteirinha!

Eu ligado à terra
no entanto ti os céus enchias.
Pasmavam-me as verdades a mim
ti abrias caminho antre as mentiras.
Eu vi a branha da chuva enlamada
ti viste Vilagundim.
Eu vi a crescente
ti toda a lua reluzente!

Eu falava das asas
ti simplesmente voavas.
Eu perguntava-me, matinava, tentava
ti simplesmente sabias.
Eu laiava-me
mas ti desmaiavas.
Eu vi a crescente
ti toda a lua reluzente.

Com uma lâmpada no peto
e o vento aos teus pés
pela escada aganchaste
e sabes o que sentes
ao chegares
bem alto
bem longe
bem aginha.
Viste a lua inteira
a lua toda inteirinha!

Unicórnios e balas de canhão,
paços e portos de mareantes,
trompetas, torres, acampamentos,
amplos oceanos cheios de bágoas,
bandeiras, farrapos, lanchas e dornas,
cimitarras e turbantes,
todos os preciosos sonhos, encantamentos,
baixo o infinito levião firmamento.

Aganchaste na escada
o vento as velas enchendo
abriste ronsel qual fugaz estrela
o teu vieiro é charamuscada:
bem alto
bem longe
bem aginha.
Viste a lua toda inteirinha!

***********************

Publiquei uma versão desta tradução ainda mais literária na página do FB o ano passado (cuido que foi!). A dedicatória daquela era:

“Quiser dedicá-la a todos quantos tivemos, temos e terão o privilégio de conhecer o goio onde se mergulhar na procura das traves de Vilagundim***. Para que nunca desapareça.

E para todos os que trabalham por um mundo em que todos os nenos do mundo possam ver a lua inteira!”

(*** Cidade mítica assolagada numa gándara e branhas de Bergantinhos. Restos toponímicos na contorna amais evidências históricas, conforme vão passando os anos, sem que deixe de ser mítica, mais me fazem cavilar que algo de certo tem.)

*************

O vídeo é uma versão ao vivo que aparece no web oficial de Mike Scott, ligada aqui desde um post em YouTube. Também do sítio oficial está tirada a letra original para a tradução.

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