Brejoeira

Vou a Carvalho tomar-lhe o café de primeira hora da manhã. Gosto de ir cedo, contra a alvorada e primeira hora do dia, e bater ainda com algum amigo que também inicia acô a manhã do sábado. Há bares que são ponto de encontro e segundo a hora assim a companhia, que não a conversa, virada no meu caso neste bar muito cara a temas da construção. Falo do novo choio que me ocupa desde há três meses com um trabalhador, um empresário da construção com quem trabalhei há anos. ‘Deixo a construção’ digo antes de ele sair, com um certo ar que soa a deixar de ser um mais do grémio. Continuo o meu café com uma parelha também empresária (e reparo nisto agora que escrevo estas linhas), neste caso laboratório dental. Falamos da productividade e a produção e pelo estilo na área que me ocupa a mim agora e enredo mais do devido, tanto, que vou mercar a prensa sem tempo já para a ler.

Tenho de sair cara ao Condado, na beira do Minho, onde me aguarda o Colás, homem de empresa também, que tanto conhece os modos de trabalho na Holanda, como os modelos produtivos da França ou o altíssimo grao de tecnificação do seu sector. Muito aprendo com o Colás, um dos meus melhores amigos, companheiro da universidade. Quedáramos de combinar para irmos ao Gerês, vermos a flora, a paisagem, desfrutarmos também da gastronomia. Estivemos ainda há um mês juntos de bares pela Crunha antes de um partido do futebol (Desportivo vs. Vigo) e volvemos combinar antes do pensado para assistirmos ao funeral de em paz esteja a avó de Susana, uma amiga de Lisboa com raizes na Galiza e família que chega a Goa.

No silêncio do orvalho, caminho do campo-santo, subindo uma costinha, o Colás ementa-me a tremenda galeguidade da estampa mentres caminhamos. A Galiza mais tradicional. Até o tempo quer estar presente em forma de chuvisca miúda.

Cruzamos o Minho na última hora do meio-dia. Vamos a Monção, Deu-la-deu diz um seu lema, reproduzindo a fala nossa num modo pouco usual, muito voltado cara à oralidade e ainda assim tão familiarmente comum aos de uma beira do Minho e da outra, ao falar de em paz estejam meus avós e os de Colás e a avó de Susana, e ao falar meu e de Colás e Susana também e o que seguirá nos rapazes novinhos, como o Xoán, o filho de Colás que vai com seu pai ao outro lado do rio para desfrutar das instalações desportivas de Monção com mais rapazes que falam, já tão bem ou melhor do que nós mesmos, a nossa língua comum.

Colás pede o almoço ainda que eu esteja a jantar, isso sim, com especificação de horário. Um restaurante de restauração esquisita. Edificação iniciada no século XVI, a pedra domina o conjunto com uns acabamentos e mobiliário que o fazem tremendamente contemporâneo: é também inequivocamente um edifício do XXI. O menu como a arquitectura: produtos tradicionais com texturas e formatos próprios da cozinha mais elaborada do momento. A conversa variada: a tese doutoral de um amigo, o ensino e a educação dos filhos, os projectos futuros, as plantas e produtos usados nos pratos.

Tomamos café e marchamos. Colás propõe ir ver os jardins do palácio da Brejoeira que me compara com os conjuntos áulicos do XVII francês. Ser é um edifício bem mais recente, do XIX, magnífico, esplendoroso, de linhas elegantemente definidas, majestosas e ao tempo perfeitamente regulares e harmoniosas. Seguimos a visita guiada do interior e, nestes tempos nos que ando revisando as viagens de Mendes Pinto, a minha atenção vai principalmente aos elementos decorativos importados de diversos pontos da Asia. Quiser conhecer a procedência da cada um. Identificam-se feituras da China e do Japão mas há grande variedade, quase que é elemento omnipresente, em todas as salas até diria agora, em forma de cerâmica e têxteis principalmente. Comento brevemente com a guia o meu interesse e uma senhora amavelmente nos fala da Companhia de Índias.

Quase não há tempo para o jardim. Quiser estar ainda de volta em Carvalho na tardinha, para o terceiro e derradeiro café do dia. Despeço-me de Colás já nesta beira do Minho. Cito a minha última leitura sobre a aprendizagem da língua humana pelos primates e um surpreendente artigo onde se insinua (tampouco se chega a afirmar) a possibilidade de que a adquisição da competência linguística possa criar variações genéticas. Comento no último momento a epigénese, o desenvolvemento fenotípico até o ponto de deixar marcas transmitidas geneticamente, pois o Colás tem mais conhecimentos do que eu, leigo, sobre a matéria genética. ‘Epigénese’ quase que soa ao tempo que ‘até pronto’.

Chego a Carvalho e de facto lá está, na cafetaria, um sábio, químico docente, educador de promoções de estudantes que tiveram já filhos que também ele educou. Tenho o privilégio, que o é, de o conhecer para além do seu trabalho. Hoje está também Arturo, economista, e chega um pouco depois Manuel, havia tempo que o não via, deixara a banca para se dedicar à docência, na que já tem um longo caminho transcorrido, e fala com emoção de como precisamente orienta o seu labor cara a formar novos trabalhadores e empresários entre outros campos, na construção. Ficamos os últimos minutos o professor e eu. Com tempo para lhe consultar sobre a teoria da epigénese e as marcas químicas no ADN. Tem de ser outro dia a explicação.

Eu saio cara ao Paço da Cultura escutar um concerto da banda municipal. Saúdo a Marisol, minha vizinha que veio para Carvalho trabalhar de costureira, e ao seu companheiro, pintor que anda precisamente agora na restauração de uma vivenda. Hoje sento de par de Servando, acompanhado pela sua dona e a sua filha. Comentamos um pouco, no descanso e nos aplausos, as peças, vendo como Lucia, que começou este ano o curso introdutório do conservatório, segue e gosta da música. Gosto particularmente da Alvorada de Pascual Veiga e quiser seguir com mais repertório afim.

Dia longo, antes de volver à casa para entregar-me finalmente à leitura dos artigos selectos da semana, maiormente literários, e provavelmente também algum poema, vou saudar, mais que nada porque quase é costume, ao derradeiro bar: Anabel, Cíntia, Álvaro, esse pequeno grupo que está ai, na rede e no bar, e faz o passar dos dias, os mais alegres e os que há que levar, ademais de mais levadeiros, agradáveis.

Marcho quando é muito noite. Mas é já uma alvorada a música que, agora em silêncio, me acompanha.

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