Amoream-se os fins-de-semana e eu sem dar notícia! Tampouco é intenção, não foi nunca, o escrever semanalmente, mas por vezes há compromissos. E quedei com Deborah, autora por certo de boas sugestões em comentários a artigos prévios neste blogue, de mencionar um concerto bem singular: Patrick Molard em Compostela.

A Deborah havia anos que a não via. Foi no descanso da ópera L’elisir d’amore de Donizzetti, na Crunha. Saudamo-nos, apresentei-lhe os meus acompanhantes, um grupo excelente de gente que se reúne para falar em italiano às sextas-feiras (supre-me em parte a antiga tertúlia que frequentei durante anos em Compostela) e demo-nos os telefones. Assim foi como, ao pouco tempo, Deborah me avisou de que ia haver uma actividade em Compostela, na Cidade da Cultura, com Patrig Mollard de protagonista.

Um dos concertos de gaita dos que mais gostei na minha vida foi o de Patrig Mollard há 20 anos em Santiago de Compostela. Eu estudara gaita em Bergantinhos durante os anos de fim de estudos básicos e o bacharelato com vários mestres da melhor escola, gaiteiros amantes do instrumento e da tradição, e era -sigo a ser- um apaixonado da música do ponteiro e os roncos. Ia aos concertos mais do que pela música de seu -que também- para ver como tocavam os gaiteiros. Ia aprender.

Fiquei impressionado pela digitação, por como as peças tinham um novo som em função do modo de posicionar os dedos e picar as notas. Eu já vira tocar assim, claro, assistira a concertos de músicos escoceses. A novidade de Patrig era trazer um repertório galego: aprendi, descobri, um novo jeito de interpretar que fazia soar as moinheiras duma maneira distinta.

Ai ficou. Daquela começava a estender-se o tocar fechado, criticado por certo pelo meu último mestre em Bergantinhos como uma simples redução devida à falta de afinação nos instrumentos. Foi a maior inovação nesta linha. No que diz à técnica, a gaita, quando eu deixei de tocá-la para me deleitar escutando-a, nunca mais me surpreendeu na digitação: a novidade vinha com o virtuosismo nos floreios cara ao prestissimo, sem quase ver mover os dedos ou com composições que avançavam na segunda oitava com notas impossíveis para quem, como eu, tinha instrumentos que dificilmente definiam por riba do Mi agudo: e ainda bom é chegar!

Segui, sigo, a escutar música de gaita. Galega fundamentalmente, claro. Também volvi a escutar a Patrig Molard, já em gravação. De facto, nos últimos anos frequentei bastante um recopilatório seu que topara num comércio em Berna, Suiça, no verão do 2007: o primeiro tema do CD é Aires de Pontevedra. Provavelmente dos albumes de gaita que mais tenho escutado junto com algum trabalho -ainda em cassete- de Ricardo Portela (um dos melhores gaiteiros do século XX) e uma banda desconhecida para mim, um agasalho que me fizeram em Escócia, a Ben Lomond Pipes & Drums, porque foi a música porque foi a música que usei para começar e acabar o dia durante muitos meses.

E fui daquela à Cidade da Cultura. Por segunda vez ( a primeira foi a começos de ano com dous companheiros operários da construção: fomos mirar se havia trabalho para nós nas obras de encofragem ou pedraria no acabamento das, há que dizê-lo, magníficas instalações).

Houve concerto, três peças. Não foi o mais destacado. Nem o objectivo da vinda de Patrig Molard. Uma conversa. Isso foi o principal. E gostei. Um gaiteiro formado na Bretanha, aprendido também com grandes mestres da Galiza, Escócia e Irlanda, percorreu de modo anedótico distintos aspectos da música da gaita e da sua actividade. Pudemos falar um pouco. Intervenções várias, respostas acertadas. No seu ponto. Abundo para reflectir. Gostei, para além da música. Uma sensação distinta.

Saí, falei com amigos que lá encontrei e já combinei para ir jantar (acô jantamos a meio-dia). Saudei gente que há muitos anos que não vejo, apresentaram-me outra nova. Deborah marchou, agradeci-lhe imenso o me ter avisado. Segui com os velhos amigos que topara: um excelente restaurante das terras de Compostela, cara ao sul, novo para mim. Entro, vou sentar: na mesa de par, Paula Carbalheira! Que pequeno é o mundo! Uma excelente escritora e actriz, saudo-a e louvo-a mais que nada a modo de apresentação dos meus acompanhantes -Paula é muito conhecida- e por lhe gavar os seus merecidos méritos (gosto muito da sua escrita e do seu labor interpretativo).

Continuámos a tarde. Vamos cara às terras de Tabeirós, para além da Estrada, na Galiza central, a uma piniqueira. Desde ali observamos o Deça, a Ulhoa, as terras de Lugo, para o norte Santiago e ao poente o Barbança. Brétema alô ao longe. É possível ver o mar em dia claro.

Volvemos, paramos um momento na Estrada, despido-me e venho de volta para Bergantinhos. No carro soa a gaita. Já é noite. Como tantas vezes a música é que nos acompanha.


Foto: O amigo Roberto (dos tempos universitários), Patrig Molard e eu. Da sessão de fotos dos assistentes com o gaiteiro a cargo do fotógrafo Pablo Giráldez no Facebook da Cidade da Cultura

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