Vai fazer pela volta de um mês que desfrutei da agradável conversa do Gabriel, um velho amigo de quem primeiro tive notícia por meio da literatura, dos tempos do instituto quando Gabriel formava parte de um colectivo que sendo rapazolos quase apenas publicava e depois seguiria a dinamizar com actividades várias a vila de Foz, na Marinha lucense: não posso menos que mencionar também agora ao Moncho, daquela, como eu, tão influenciado pelos escritos vanguardistas das travessias de Manuel António, o poeta do mar; e o Marcelino, um artista do debuxo.

O Gabriel acabou o instituto e estudou veterinária em Lugo e por isso, anos depois, deixada a época dos fanzines e revistas, quando me deu por mercar umas ovelhas, fui cabo dele para me orientar por onde poderia conseguir os melhores exemplares ovinos para acasalar com umas ovelhas que já havia no meu lugar. Desde aquela une-nos um gosto pela actividade pecuária e a agricultura, os nossos temas de conversa principais. Assim que deste último encontro, depois de virmos ver uma agra a patacas de cedo e milho do país botado mais que nada por causa das favas de par de um sistema de plantação de leituga para o verão, fomos jantar – acô onde eu sou jantamos a meiodia 🙂 – juntos a Carvalho, um dia de feira, com obrigatório percorrido de alguma das melhores tabernas e bares para o aperitivo e o café.

O Gabriel cria cavalos e a conversa veio dar em matéria equina. Os distintos tipos de animais e o seu andar, as suas características físicas, a distribuição geográfica e as suas qualidades. E o comércio e a exportações, o atlântico mais antigo e o aberto com a grande epopeia das descobertas e as novas rotas marítimas do XVI.

Foi daquela que Gabriel mentou uma das qualidades que se atribuía ao cavalo galego: o seu passo travado que lhe permitia andar muito mais longas distâncias, por mais tempo e a a maior velocidade do que outros cavalos ao galope.

Então foi como uma revelação para mim! Mencionei o meu trabalho com o Mabinogi quando Rhiannon aparece como amazona e quem tenta segui-la nunca lhe dá alcance por muito que Cabal procura as bestas mais velozes. Rhiannon vem de um outro reino e a sua distinguida cavalgadura tem características que a singularizam. A cena precisamente o que está a descrever é um equídeo que não cansa nunca e corre ao passo travado mais do que os seus perseguidores ao galope.

Comentei-lhe o meu pensamento a Gabriel que deveu notar a minha emoção. De facto a conversa já só continuou sobre este assunto. Acabamos de tomar o café, despedimo-nos e quedamos de combinar um outro dia e, mentres, temos contacto na rede. Eu senti-me mais obrigado a lhe dar forma a este trecho da tradução. Velacô o anaco em que aparece o cavalo por primeira vez:

Ac wal y bydynt yn eisted, wynt a welynt gwreic ar uarch canwelw mawr aruchel, a gwisc eureit llathreit o bali amandanei, yn dyuot ar hyt y prifford a gerdei heb law y’r orsedd. Kerdet araf guastat oed gan y march ar uryt y neb a’y gwelei, ac yn dyuot y ogyuuch a’r orssed.

E conforme estavam a sentar viram uma mulher num cavalo louro, grande, altíssimo, com um vestido dourado, reluzente, de pano bordado, vir pela beira do caminho que discorria por de par, cara ao altinho.(1)

O cavalo tinha um passo vagaroso e constante segundo o entendimento de todos quantos o viam e vinha à altura(2) do altinho.(3)

(1) Isto é, a amazona ia paralela ao caminho, em direcção ao outeiro, mas não pelo caminho próprio, senão por uma beira de fora.

2) Possa que haja um duplo sentido, isto é, que o cavalo estava, a respeito do altinho, num mesmo ponto numa linha paralela sem considerar a altura ou que o cavalo, ao andar tão direito e ser tão grande, era quase tão alto ou tão alto como o altinho (o sufixo go– em (g)ogyuuch significa sub– e gyuuch quer dizer ‘do mesmo alto‘).

(3) Gorsedd: também significa , trono, tem um significado institucional. Por exemplo Gorsedd y Beirdd: A ordem bárdica. Note-se que aqui tem um valor de lugar onde se podem sentar várias pessoas, isto é, não é um trono ou sé de uma única pessoa, mas um sítio de reunião. Na versão em galês moderno de Dafydd e Rhiannon Ifans em vez de gorsedd usa-se sistematicamente bryncyn que significa outeiro. A tradução de altinho pareceu-me boa por quanto tanto pode aludir a uma construção, isto é, a um espaço modificado ou construído, como a um elevação do terreo sem intervenção humana: ocorreu-se-me hoje mesmo por andar eu estes dias a escutar o formosíssimo cantar ‘Altinho’. No parágrafo anterior ao traduzido acô quando se menciona gorsedd por primeira vez aparece penn gorsedd que se pode traduzir por montouto ou outeiro sem significado de construcção nenhuma. Mas no texto também se diz que Cabal vai ali para se sentar, com o qual o significado de se faz evidente. O Prof. D. Luis Monteagudo, que tantas horas e tantos dias me atendeu cas sua e me aprendeu filologia para eu traduzir este texto, tem estudado os outeiros com um significado institucional e ritual que poderia explicar o sentido de gorsedd. O doutor em história André Pena a quem devo também muitos dias e trouleantes noites! de companhia (e esmorga), e com quem tanto aprendi também, tem atendido a funcionalidade institucional de outeiros particulares em numerosas publicações. Destaco os trabalhos de ambos os dois autores sobre esta matéria no Anuário brigantino que dirige o excelente, e quase diria que único para quem queira aproximar-se à época da escrita do Mabinogi, debuxante (entre as várias actividades nas que destaca) Alfredo Erias.

Advertisements

4 pensamentos sobre “Um passo vagaroso e constante

  1. Olá Xavier.
    Como bem comentavas e como curiosidade a engadir a esta tua nota, é mais que probável a origem galega ou quanto menos, umha grande influência na conformaçom das raças equinas das ilhas assim como em todo o chamado “arco atlántico”. Um bo número de autores internacionais, como Elwyn Hartley Edwards, estabelece que o poni irlandés mais popular, o Connemara, descende originariamente dos cavalos levados à Ilha polos celtas de Brigantium no seu deslocamento a Irlanda. Esse mesmo autor estabelece que boa parte dos cavalos pequenos e ponis británicos tenhem esse sangue Connemara (galego, entom), desde Gales a Escócia. Nom só isso, e, como tu dizias, mais evidente é o feito de ser o cavalo do relato que estás a traduzir um cavalo “marchador”, segundo parez, por essa capacidade de avançar a grande velocidade ao passo, sem galopar. Já Plinio, na sua descripçom dos cavalos que topou na Galiza nas primeiras incursons romanas, relatou dos nossos cavalos aquelo de ‘mollis alterno crurum explicatu glomeratio’, ou a sua capacidade para acompasar simultaneamente o braço e a pata de cada lado para se desprazar. Nas suas crónicas fai umha ampla descripçom dos animais e das suas qualidades excepcionais para percorrer grandes distáncias a bo ritmo sem necesidade de descanso graças à sua capacidade de “marchar”.
    Mas o sangue dos nossos cavalos anda por todo o mundo… na América, onde a introduçom dos cavalos foi devida ao processo colonizador de espanhois e portugueses, em primeiro lugar, é onde podemos topar com cavalos que respondem perfeitamente ou em grande medida à descripçom do cavalo galego, hoje em dia reconhezido como raça própria (desde há apenas 15 anos…). Assim lá topamos o “galiceño” (disque tem a sua origem nos primeiros 16 cavalos que introduziu no continente Hernam Cortés) na zona do Golfo de México e moi popular nos EEUU, onde está reconhezido como raça desde o ano 1958 , e que foi o primeiro cavalo em ser domesticado polos índios, o Mustang, os chamados “passo fino”,crioulos,…. mas isto case dá para um artigo. Só como curiosidade deixo umha ligaçom de um cavalo galego e de um desses cavalos ianquis que… anda como se fora galego!

  2. Caro Gabriel, são estas respostas as que lhe dão sentido e animan a realizar certos tipos de trabalho, como o que vem agora ao caso. Obrigado.

    Seria muito interessante analisar as fontes nas q se baseia Elwyn Hartley Edwards. Tens a referência? Por certo que ao falares de Connemara tenho de mencionar que estive lá a fins dos 90, tive o privilégio de parar na casa duma família falante de gaélico, pois lá é uma área na que a língua irlandesa é a falada comummente. Conheci a gente com muito boas iniciativas que trabalhava tanto a nível irlandês como mais a nível local para a comunidade. Anos depois, em várias ocasiões, quando requeri apoio para alguma iniciativa q se desenvolvia acô a nível local, sempre topei uma grande disposição e o melhor dos apoios, não só a nível de entidades particulares, também a nível institucional. Estou-lhe muito agradecido e não posso menos que gabar e louvar o bom trabalho que lá se faz.

    Parece-me difícil, no estado actual das pólas da filologia pertinentes, determinar as referências (se houver) ao cavalo galego nos textos das ilhas britânicas. Dois motivos: um, porque se estiver traduzido (ao inglês) as referências são simplesmente anedóticas para gerarem aparato crítico que chame a atenção dos especialistas. Outro, o principal, porque o próprio adjectivo ‘galego’ seria quase sistematicamente interpretado como galês, gaélico, bretão ainda galo ou buscar-se-lhe-ia uma explicação mesmo num topónimo mais local ou lapsus calami antes do que ‘proveniente da Galiza’. Apenas em contextos muito claros, onde se faz uma boa contextualização geográfica, seria facilmente discernível.

  3. Por el contexto de la frase creo que es la segunda explicación

    2 …ou que o cavalo, ao andar tão direito e ser tão grande, era quase tão alto ou tão alto como o altinho (o sufixo go- em (g)ogyuuch significa sub- e gyuuch quer dizer ‘do mesmo alto‘).

  4. Deborah, certamente, tanto pelo contexto como pelo significado literal a explicação mais convincente é a segunda: ‘(g)ogyuuch significa sub- e gyuuch quer dizer ‘do mesmo alto‘. Obrigado pela atenção e pelo comentário. As vezes, muitas, na tradução há distintas alternativas e é muito fácil, ainda que o sentido seja óbvio, escolher um significado muito mais restricto ou menos claro. Temos, daquela, mais um elemento para a descrição do cavalo.

Podes enviar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s