Acabou o período escolar e meu priminho de 8 anos, David, filho duma minha curmã, vem diário cabo de mim para lhe darmos uns ponteirolos, furolos e outros chutes e requintes de mais estilo, à bola. Desfruto da sua companhia e aprendo com a sua conversa. Ontem ainda eu não baixara à hora de costume -ando com a prática do galês e uma notícia sobre uma importante distinção a uma publicação levou-me a escutar a rádio on-line- quando chegou David a pé de mim. Pus-lhe para ouvir o programa em galês, que lhe pareceu um outro idioma, claro.

Hoje amanhã tava apanhando nuns regos de patacas de cedo quando véu David na sua bici, muito antes do tempo de brincarmos. Esteve comigo até que acabei o labor e finalmente fomos com o cão, cadelo mais bem, até as chousas duma bouça perto. De caminho íamos falando das árvores e alguma planta de fruto que víamos: a aveleira nos ribazos do carreiro, que dá avelãs; a silva, ‘bem conheço’ diz David, que dá amoras; uns abrunheiros, alguns pés com os abrunhos a médio lograr, verdes, outros com a folha nada mais; castanheiros, as candeias amarelas estradas no chão; carvalhos pela beira de dentro da chousa, as landras ainda a agromarem; uma plantação de … ‘eucaliptos!’ diz o rapaz; ‘e estoutro é um pinheiro’ sigo eu; de supetão… este é menos comum… um sanguinho parece!; de fronte… abeneiros, comentamos a sua forma; seguimos vendo loureiros, ulimos a sua folha: ‘uma ou duas para lhe dar sabor ao guiso’; e a seguir salgueiros, em chegando já a um regacho, ‘o que é regacho?’ pergunta-me antes de ouvir a correntia, ‘um rego com água’ respondo; ‘é um rio pequeno’ diz ao olhá-lo; ‘um rio pequeninho, um regacho,’ digo-lhe eu, ‘e se for ainda mais cativo havia ser um regueiro; e ainda mais cativinho, um rego de água’ especifico.

No arrô, da outra beira do carreiro e choutando cara à chousa em vez de para a água, uma rã pequerrechinha, ainda por medrar, há pouco saiu de cágado, nem gorja tem para carrar, da cor do estrume seco, da caste que procura mais a lentura da côdea da terra e o resio da erva do que o mergulho nas poças; agocha-se na louça e mentres aguardo que volva brincar reparo, entre a silveirada e o tojo ‘arnal este do cadolo gordo,’ digo ‘… um carriço! Velo acolá! É o que tem o melhor ninho de todos!’ E comento a feitura de cas do carriço.

Já metidos em passaros e indo de volta reparo num peiçoque, axexo-o. Ta no alto dum abeneiro, impossível de ver, enriba de nós, alô no bico, entre médio de muita poliscada. Tem um rechouchio ao que lhe não tenho colhido a música, assim que apenas lhe respondo à frase final. Depois de uns minutos de diz ti que eu retrouso-retruco, o David entre afirma e logo pergunta ‘Falas o idioma dos passaros! Que diz?’ ‘Apenas lhe respondo,’ digo eu ‘é como aprender um outro idioma, é difícil de lhe colher o acento ao primeiro. Eu inda lho não colhi!’ David assobia também, mais imitando o meu assobio do que o do passaro. Dom Peiçoque compreende a rima minha e fala-canta. ‘Tamos a enredá-lo e tem mais que fazer do que nós a tal hora! Se calhar tem de atender o ninho!’ digo. E marchamos.

De ali a nada: ‘O pombo bravo!’Ouço. E começo a arrolar eu conforme arrola o pombo. E comigo David, mentres andamos muito longe de quem nem imagina que, ademais de o escutar, tamos a arrolar com ele.

Alô diante Rifante, o cão, come na erva. Vamos os três falando caminho de volta. Melhor dito, Rifante nem ladra nem ouveia nem dá agougo, ou chio igual melhor deveria dizer, já postos a falarmos uns os idiomas dos outros! Limita-se à comunicação não verbal: escuta, faz que anda ao seu e a seguir ergue cortesmente a cachola, estrica as orelhas em sinal de atenção e olha educadamente para nós quando lhe damos palavra. ‘Que me quereis?’ entendo que pergunta. ‘Vi acô e dou-che um alouminho.’ E vai ele dá-lhe ao rabo e… vem.

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2 pensamentos sobre “Idiomas

  1. No tengo ni tuve aldea. Me crié en el ensanche compostelano, rodeada de cemento.Solíamos pasear por la (ciudad) universitaria, campus vida le llama ahora y por las aldeas próximas y la falda del Monte Pedroso. Estudié en un colegio público, Lamas de Abade, en el que la mayor parte de los estudiantes procedían de las aldeas que se forman entorno a la carretera de Ourense, pero fueron muy pocas veces las que tuve contacto con el mundo rural siendo niña, todavía no he satisfecho toda la curiosidad que me produce esa forma de vida tan común en Galicia y que para mí es prácticamente desconocida. La familia se repartía entre Vilagarcía, Carril y Pontevedra, y así mi infancia fue adornada por el mar y sus bondades. Me gustan mucho las historias relacionadas con la vida en el campo, gracias por compartirnos tus experiencias con David y Rifante.

  2. Deborah, gosto imenso de que nunca tiveras aldeia. Eu tampouco. Desde logo, no que a mim diz, acô há, houve e haverá decote lugares, casais, vilares, cenfogas, rueiros ou simplesmente um genérico campo.

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