Escreve-me um colega e acabamos falando de que se anda a trabalhar numa nova edição dos Queixumes dos Pinos de Eduardo Pondal. E assim rebeiro numas linhas de vai pela volta de um ano escritas com ocasião duma semana em que me dediquei a desfrutar da obra do bardo. Fiz mesmo uma pequena excursão pela beira-mar bergantinhã com o propósito de melhor sentir e compreender alguns dos seus poemas.Velacô a orientação que seguira daquela na leitura e na viagem. E um poema dos escolhidos. Que volvi, sim, volvi a escutar quando contemplava as paisagens.

Aves de passo

Pondal começa as suas Queixumes cantando a um cantor que bem pode ser o bardo mesmo. É o guia, o carreteiro, um arrieiro. É a imagem do homem que fala com os animais e é entendido pelos animais. É o homem que olha a natureza e escuta a sua mensagem. E a natureza, agradecida, volve-se ela mesma humana: os pinheiros são personificados, devêm um ente humano, como logo há ser em Tolkien n’ O Senhor dos Anéis.

E com a natureza e na natureza aparece também o bardo a procurar os mais erguidos propósitos. Anda a peregrinar, como as aves de passo que se dirigem às Sisargas. Lá onde peregrinam também os homens e mulheres bons e generosos: alô ta um dos lugares mais importantes de peregrinação do espaço abrangido pela poesia pondaliã: a igreja de Santo Hadriam a onde iam gentes de todo Bergantinhos em romaria.

Vista ilhas Sisargas

Alô seguem a ir os romeiros o dia da festa. Lá, desde onde se vejutam praias e baixos, quiser ir o bardo guiado por um outro calendário, o do instinto da natureza, o das aves de passo que, como os romeiros, repetem o mesmo ciclo dum ano noutro.

Para procurar na paisagem um espaço de verdade, de seguridade, para descobrir o férreo propósito.

Acolá o bardo podia observar só o mar. Os matos. As aves. Ao longe as naus.

E havia sentir por um momento mais perto a liberdade.

MUITAS VEZES NOS MATOS NATIVOS

Muitas vezes nos matos nativos,
no crepúsculo fusco e calado,
se escuita das aves
o rápido passo;
das aves aquelas
do pico tamanho,
que soem retirar-se
dos rudos trabalhos,
de escolhos e praias
do fero Oceano;
e vão em ringleira
gritando e voando,
em demanda das ilhas Sisargas,
seu noto reparo.

Ah! quem fora como elas tão livre!
Cautivo do barro,
com funda tristura
dissera-se o bardo
que sonha antre as uzes
co tempo passado;
quem fora tão livre,
fugindo do trato
falaz, inseguro,
dos néscios humanos!

Quem pudera viver coma elas,
nas praias e bancos,
nos baixos e furnas,
nas sirtes e fachos,
nos seios esquivos
dos feros penhascos!

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Um pensamento sobre “Aves de passo

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