Como modo de me exercitar na tradução e, devo reconhecê-lo, mais que nada porque gosto imenso, de quando em vez faço versões de composições da música pop ou clássica. Assim cheguei a esta peça, em http://www.youtube.com/watch?v=RpLi5QLu5TU Eu já a conhecia, mas nunca traduzira até o 20 de Fevereiro de 2011 em que decidi botar umas horas com esta composição da música tradicional galesa. Para traduzir usei o texto de: http://www.youtube.com/watch?v=ORB-m7jIU0Y e cotejei com versões e traduções da entrada Ar lan y môr na Wikipedia.

Quando um se enfrenta a um texto literário e particularmente poético tem que tentar traduzir o sentido e ao tempo mater no possível a estrutura formal. Cuido que esta é a intenção das traduções inglesas que topei, quase diria que o factor principal é a musicalidade, a versão para ser cantada, por riba do significado exacto do original.

Na minha tradução prima a literalidade, isto é, a reprodução fiel do sentido, dado que traduzo para compreender uma peça que é escutada na sua versão original. Se for para ser cantada em galego obviamente teria que reformá-la e manter a métrica e rima. Ainda assim, conservei rima para que se capte perfeitamente a essência musical do original.

Conservo a estrofação em quadras e a rima não sempre soante. O esquema em galês é AABB no quanto no galego varia ABBA ABBA ABAB. É de destacar que na versão final ao reproduzir a pronúncia da cantante não há rima no segundo dístico da primeira quadra innau verso 3 – bore v.4. Isto deve-se à estandarização do galês, numa pronúncia do sul sim haveria assonância e assim se recolhe noutras versões escritas inne v.3 – bore v.4, (também se aplicaria em v.11 e v.12) segundo a forma do plural próprias destas falas do Cymraeg De (galês do sul).

O principal elemento a sublinhar da minha versão é a voz poética. No original não acho indicativo gramatical nenhum que permita determinar se quem fala é uma mulher ou um homem. Há pelo tanto ou que buscar a neutralidade ou decantar-se por uma voz masculina ou feminina ao verter para uma língua romance. Ainda que procurei na rede, não topei documentação relevante sobre este texto, apenas uma referência na Wikipedia sub voce ‘Ar lan y môr’ e um artigo onde se discute precisamente o facto de a voz poética ser feminina. Os patrões da nossa cântiga de amigo quase que se nos revelam e cuido a versão em galego contribui notavelmente a restituir também uma tradição poética tão relacionada com o mundo atlântico.

Indicar algum aspecto mais da minha tradução. A forma carreg, plural cerrig, propriamente é pedra ou pena (etimologicamente é o nosso croio) num sentido genérico. Parece claro pelo contexto que se pode traduzir (e que traduz melhor ademais) como laje. Assim temos cerrig wastad literalmente pedras ou penas chãs, isto é, lajes. Recentemente, numa conversa com o Prof. Fernando Alonso Romero(1) da faculdade de filologia da USC, fui agasalhado com um trabalho seu sobre o petróglifo de filhaduiro em Carnota . Coincidiu justo que vinha de ler o estudo do professor quando fiz esta tradução. Casualidades ou não, cuido que sem chegar a especificar que sejam exactamente as mesmas lajes onde as parelhas se juntavam, desde logo o original galês pode-se traduzir perfeitamente e parece aludir mais a lajes do que a outro tipo de formação pétrea.

Determinante é a derradeira estrofe: volve aparecer cerrig gleision, pedras ou lajes verdurentas, ou lajes verdecentes como a costa verdecente do meu admirado Eduardo Pondal ou ainda lajes de verdura, que tão bem ditaria neste caso, seguindo os versos do nosso Camões:

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Campo, que te estendes
Com verdura bela; (…)

Nas traduções ao inglês achei, segundo o meu entendimento apartando-se do significado original, pedras azuis, pois as línguas célticas, como (e digo com certa reserva e com necessidade de maior estudo) me parece que é patrimonialmente quando menos em boa parte das romances, e nas falas galegas até quando menos o século XIX, não distinguem estas cores e têm uma única forma para as designar: glas (v.8) pl. gleision cobre a gama cromática do verde até o azul.

Tanto o adjectivo inicial (v.5) gwastad chão, como as descrições dum espaço inçado de flora, sugerem uma tradução à forma verde com o qual se reforça ainda mais sentido o serem lajes rodeadas ou mesmo cobertas por certa vegetação, tal e como ademais se descreve na canção.

Finalmente o título, Ar lan y môr, propriamente é num alto na beira do mar. Lan significa outo, enriba de, tem um valor de alto. Isto é, literalmente o título e a frase que se repete em todo o poema refere-se a um ponto para enriba do mar, numa situação de maior altura do que o mar. O título é expresivo abundo para ainda mais certificar que não estamos a falar de cantarolinhos entre a areia, como se poderia deduzir da tradução inglesa, mas dum ponto onde mais parecem não chegar as ondas do mar. Certamente a imagem da laje do filladuiro, ou de tantas outras lajes da beira-mar, ilustram perfeitamente o locus amoenus ao que a canção se refere.

Com esta precisão introdutória sigo a optar por Na beira do mar. Ainda sem esse matiz de altura e de precisão que tem o galês, conserva o valor de proximidade num sentido lasso e ao tempo mantêm uma certa aliteração e a mesma quantidade tónica com variação duma única unidade silábica a respeito do original.

Por último uma menção ao estilo que pode simular as cântigas de amigo: não tem nenhuma valor de contextualização temporal pois a canção é recolhida em tempos bem mais recentes. Longe dos antigos cancioneiros medievais, Ar lan y môr situa-nos muito depois de acabada a escola trovadoresca, já na linha iniciada pelo Romantismo de recolhida da tradição oral e valorização da produção popular. Como se diz nestes casos, todo parecido é coincidência, sem intencionalidade no que diz à minha participação como tradutor. De estabelecer similitudes com a lírica galaica correspondem à essência própria da poesia, na sua temática e na sua forma.

Publiquei inicialmente a tradução na minha página no Facebook o dia 20 de Fevereiro do 2011. Os comentários de Susana Esteves desde Lisboa contribuíram a melhorar o texto. Em concreto numa primeira versão no v.3 usava à manhã em vez de de manhã. Também me fez notar que um público da metrópole portuguesa precisaria notas para compreender o significado de arreo ‘todo de seguido, continuo, sem interrupção’ e poliscas ‘pôlas pequenas, ramalhos menores duma árvore’. O meu uso sistemático do verbo TAR por ESTAR, ainda que compreensível resulta chamativo num registo literário. A erudição celtista há cuido prezar esta minha conservação da forma popular e, eu parece-mo, patrimonial.

Enviei uma primeira versão impressa ao professor Fernando Alonso quem muito amavelmente me mencionou a semelhança da canção com as cântigas de amigo. Por último agradeço-lhe ao amigo, também no FB, Marcos Maceiras, as suas palavras de ânimo.

(1) Fernando Alonso Romero et al.: O petróglifo do filladuiro. Enigma na pel da pedra. Noia: Ed. Toxosoutos, 2008.

Na beira do mar há rosas vermelhas
na beira do mar há brancos lírios,
na beira do mar o meu amigo
dorme de noite e de manhã esperta.

Na beira do mar há lajes arreo,
onde lhe dei palavra ao meu amigo,
e derredor delas medra o lírio
e algumas poliscas de romeu.

Na beira do mar há lajes verdes,
na beira do mar tá da mocidade a flor,
na beira do mar tá tudo o prezado,
na beira do mar tá o meu amor.

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2 pensamentos sobre “Uma tradução duma canção galesa: AR LAN Y MÔR

  1. Gosto da canção e do texto, mas creio que não tiveste em conta na interpretação o significado mágico das plantas que descreve. Penso que as rosas estão relacionadas com o amor pois é uma flor ligada às emoções, até onde eu sei as rosas não crescem na beira do mar. O lírio é uma protecção contra o mal de olho e um jardim de lírio mantém longe os fantasmas e o mal. Ao serem brancos penso que simbolizam a pureza do seu sentimento. O romeu está ligado ao desejo sexual. Assim as plantas mencionadas na canção enriquecem a mesma aportando três conceitos: amor, honestidade e paixão.

  2. A explicação da tradução vai no sentido de que se está a falar não de justo de par do mar propriamente, mas de um lugar desde onde se ve o mar. Um lugar no que há muita vegetação e flores. “Finalmente o título, Ar lan y môr, propriamente é num alto na beira do mar. Lan significa outo, enriba de, tem um valor de alto. Isto é, literalmente o título e a frase que se repete em todo o poema refere-se a um ponto para enriba do mar, numa situação de maior altura do que o mar.”

    Tenho uma edição impresa desta tradução com o artigo. A capa é um debuxo a partir dos motivos do petróglifo do filhaduiro estudado pelo prof. Fernando Alonso. Vê-se muito mais claro o que quero dizer. Se fica jeitoso, escaneo-o.

    No que diz ao significado mágico ou simbólico das plantas não aparece, para mim, de forma explícita. Se tenho modo, e ainda que seja brevemente, hei de lhe dar mais uma volta e fazer um pequeno estudo a respeito do significado de estas plantas na literatura galesa daquela.

    Pouco mais dizer que desde logo os significados que lhe atribues de amor, honestidade e paixão parece-me que concordam com o sentido da cântiga.

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