Dous oceanos

Na viagem marítima de Macau a Hong-Kong, por um momento, abstraí o pensamento sobre da paisagem do delta do rio das pérolas para viajar com o Fernão, e senti essa sensação, fruto da admiração, da emoção de quando se inicia uma grande viagem que se apresenta cheia de possibilidades, grandeza, riqueza, prosperidade. Supus que aqueles mercadores a quem o grande império chinês permitira assentar naquele  porto, tinham de sentir a emoção da partida, por riba do medo à infortuna, com o coração de cote posto na volta. Da comodidade do ferry, mais um dia de avião e volto, o mesmo que sou, sem barbear como único efeito visível da viagem, a recrear-me na paisagem atlântica enquanto vou, também por mar, de Moanha, onde passei a noite, a Vigo, no caminho que me leva a Bergantinhos. E também admirei o feito de estar, de um dia para outro, em circunstâncias similares, em pontos tão afastados do globo. Porém, será logo pelos condicionantes literários da paisagem, a lírica agora, Martim, instalei-me por um momento na soidade, nem poderia dizer se com conforto,  preferi pensar e autoconvencer-me de que só e unicamente provocada pelos ecos aliterativos do pergaminho Vindel. No caminho a Santiago passo as folhas de alguns volumes de estudos que falam das cidades do delta, com títulos que parecem mais bem epítetos ao modo homérico: Zhuhai, a cidade-jardim do Delta do Rio das Pérolas; Shenzhen, uma cidade para todas as estações; Foshan, da Montanha de Buda a centro de produção mundial… e com o pensamento posto em volver um dia a Macau, boto a morrinha fora e penso que de cote fica algum lugar aguardando por conhecer.

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